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Kennya Martins Psicóloga e neuropsicóloga
Aprendizagem

Discalculia: como reconhecer a dificuldade com números

Kennya Martins, psicóloga e neuropsicóloga, sorrindo, de blazer azul-marinho

Por , psicóloga e neuropsicóloga
· 4 min de leitura

Kennya Martins, neuropsicóloga, na sala de atendimento infantil, ao lado da estante de brinquedos
Kennya Martins na sala de atendimento infantil do Instituto Mundo de Dentro.

Discalculia é o nome dado ao transtorno específico da aprendizagem com prejuízo na matemática. A criança tem dificuldade persistente para entender quantidades, guardar fatos numéricos básicos e fazer cálculos, apesar de ter inteligência dentro do esperado e acesso a ensino adequado. Ir mal em uma prova ou não gostar da matéria, sozinhos, não caracterizam o quadro.

O que é discalculia

Um estudo brasileiro publicado em 2016 na revista Arquivos de Neuro-Psiquiatria descreve a discalculia do desenvolvimento como uma dificuldade específica para aprender aritmética em pessoas com nível intelectual normal. Os autores citam estimativas internacionais entre 3% e 6% das crianças em idade escolar, com bastante variação entre os estudos. Na pesquisa deles, feita com 2.893 alunos de escolas públicas de São José do Rio Preto (SP), a frequência encontrada foi de 7,8%.

A condição tem relação com o funcionamento cerebral, pode se repetir em uma mesma família e aparece com frequência ao lado de outras condições, principalmente dislexia, TDAH e ansiedade. Dificuldades de memória de trabalho e de atenção também são comuns e interferem no cálculo.

Sinais por fase escolar

Os sinais mudam conforme a criança cresce e a matemática fica mais exigente.

Na educação infantil

  • Dificuldade para aprender a contar, pulando números na sequência
  • Não entender que contar serve para saber "quantos": quando pedem três objetos, entrega um punhado
  • Dificuldade para ligar o símbolo do número à palavra falada
  • Dificuldade para associar um número a um grupo de objetos
  • Dificuldade para perceber padrões, como ordenar objetos por tamanho

Nos anos iniciais do ensino fundamental

  • Dificuldade para memorizar fatos simples, como quanto é 5 + 3
  • Continuar contando nos dedos quando os colegas já usam outras estratégias
  • Confundir os sinais das operações
  • Dificuldade com expressões como "maior que" e "menor que"
  • Erros de valor posicional, com algarismos na coluna errada

Nos anos finais e no ensino médio

  • Dificuldade para planejar como resolver um problema escrito
  • Dificuldade com dinheiro: calcular troco, somar uma conta, controlar gastos
  • Dificuldade para ler gráficos e tabelas
  • Dificuldade com medidas, velocidade, distância e direções
  • Tendência a evitar jogos e situações que envolvem números

Dificuldade com matemática ou transtorno?

Muitos alunos vão mal em matemática sem ter discalculia. Faltas, troca de escola, lacunas de conteúdo e ansiedade diante da matéria produzem notas baixas. O estudo brasileiro lembra que a ansiedade em relação à matemática pode imitar o quadro e precisa ser diferenciada.

Pelos critérios do DSM-5, a suspeita de transtorno ganha força quando:

  • A dificuldade persiste por pelo menos seis meses, mesmo com intervenções direcionadas
  • O desempenho fica bem abaixo do esperado para a idade e atrapalha a vida escolar ou cotidiana
  • O problema começa nos anos escolares
  • Nada explica melhor o quadro, como deficiência intelectual, problemas de visão ou audição não corrigidos ou ensino inadequado

Um indício costuma ajudar: quando a criança tropeça desde cedo em noções básicas de quantidade, e não só em conteúdos mais avançados, a hipótese de discalculia ganha peso.

Como é investigada

Não existe um teste único para discalculia. A investigação junta a história escolar, relatos da família e da escola e testes padronizados. Costumam entrar:

  • Provas de aritmética adequadas à idade e à escolaridade
  • Avaliação do funcionamento intelectual
  • Avaliação de leitura e escrita, já que os transtornos de aprendizagem aparecem juntos com frequência
  • Avaliação de atenção e memória de trabalho

A avaliação neuropsicológica mostra em que ponto o raciocínio matemático trava e quais habilidades estão preservadas. Esse retrato orienta a escola e a família sobre o tipo de apoio que faz sentido.

O que fazer diante da suspeita

  • Registrar exemplos concretos: contas que a criança não resolve, situações com dinheiro, tempo gasto nas tarefas
  • Pedir à escola um relato do desempenho e do que já foi tentado
  • Usar materiais concretos em casa, como tampinhas, moedas e jogos de tabuleiro, sem clima de prova
  • Evitar frases como "você não é de exatas", que reforçam a ideia de incapacidade
  • Procurar avaliação quando a dificuldade continua mesmo com reforço

Se houver também dificuldade de leitura, vale conhecer os sinais de dislexia por idade, já que os dois quadros andam juntos com frequência.

Fontes

Este artigo tem caráter informativo e não substitui a avaliação de um profissional.

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