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Kennya Martins Psicóloga e neuropsicóloga
Autismo

Autismo em meninas: por que os sinais passam despercebidos

Kennya Martins, psicóloga e neuropsicóloga, sorrindo, de blazer azul-marinho

Por , psicóloga e neuropsicóloga
· 4 min de leitura

Kennya Martins de braços cruzados diante da parede verde, ao lado do símbolo do Instituto Mundo de Dentro
Kennya Martins no Instituto Mundo de Dentro.

O autismo é diagnosticado com mais frequência em meninos, e nas meninas ele pode ser reconhecido mais tarde ou nem chegar a ser identificado. Parte da explicação está na camuflagem social, o esforço para esconder ou compensar as dificuldades. Outra parte está no próprio jeito como o quadro aparece em muitas meninas, mais discreto do que a imagem clássica do autismo.

O que dizem os números

Nos Estados Unidos, o CDC acompanha a frequência de autismo em crianças de 8 anos. Pelos dados de 2022, cerca de 1 em cada 31 crianças dessa idade foi identificada com transtorno do espectro autista (TEA), e o diagnóstico foi mais de três vezes mais comum em meninos do que em meninas. Uma proporção de quatro meninos para cada menina costuma ser citada como referência.

Uma meta-análise publicada em 2017 no Journal of the American Academy of Child and Adolescent Psychiatry sugere que parte dessa diferença vem de como o diagnóstico é feito. Os autores concluíram que a proporção real não é de quatro para um, como se costuma supor, e sim mais perto de três para um. Nos estudos que rastrearam a população geral, a diferença entre os sexos foi menor do que nos que contaram apenas casos já diagnosticados. Para eles, há um viés de gênero no diagnóstico: meninas que preenchem os critérios correm mais risco de ficar sem diagnóstico.

Camuflagem social

Camuflar, ou mascarar, é esconder características do autismo para se encaixar. A menina observa como as colegas falam, riem e brincam e passa a copiar esse repertório. Para quem olha de fora, parece que está tudo bem.

O serviço público de saúde do Reino Unido (NHS) explica que a camuflagem torna alguns sinais mais difíceis de enxergar nas meninas. Elas podem ter mais tendência a mascarar, embora meninos autistas também façam isso.

Sinais menos óbvios

Segundo o NHS, meninas autistas podem ter mais tendência a:

  • Copiar a forma como outras crianças se comportam e brincam
  • Ficar quietas em situações difíceis, em vez de reagir de forma visível
  • Parecer lidar bem com situações sociais
  • Mostrar menos comportamentos repetitivos do que os meninos autistas

Outros sinais descritos pelo NHS para crianças e jovens também merecem atenção:

  • Poucas amizades próximas e muito tempo sozinha
  • Dificuldade para entender ironia e tendência a levar tudo ao pé da letra
  • Interesses muito intensos
  • Reações fortes a sons, luzes, cheiros, roupas ou texturas de alimentos
  • Muito sofrimento diante de mudanças de rotina, como a troca de escola

Por que a identificação atrasa

Quando a imagem que se tem do autismo é a de um menino que não fala ou que se isola de forma evidente, a menina que conversa, tem uma amiga e não atrapalha a turma pode não levantar suspeita. Somam-se a isso a camuflagem e a menor frequência de comportamentos repetitivos visíveis. Esse conjunto pode contribuir para o viés apontado pela meta-análise de 2017.

Há um custo nisso. O NHS observa que meninas autistas têm mais chance de apresentar problemas de saúde mental, como ansiedade, depressão ou transtornos alimentares. Esses quadros podem ser o primeiro motivo da procura por ajuda, e por isso o autismo merece entrar na investigação quando os outros sinais estão presentes. Os sinais de ansiedade na infância ajudam a reconhecer esse lado do quadro.

Diante da suspeita: por onde começar

  • Pergunte à escola como a menina se sai no recreio, nos trabalhos em grupo e nas amizades
  • Anote reações sensoriais, rigidez com rotinas e interesses muito intensos
  • Observe como ela fica depois da escola e de festas ou encontros com muita gente
  • Procure profissionais com experiência em autismo, inclusive na forma como ele aparece em meninas
  • Lembre que o diagnóstico é clínico e multiprofissional, e que a avaliação neuropsicológica ajuda a mapear forças e dificuldades

Para crianças pequenas, os sinais de autismo nos primeiros anos valem para meninos e meninas. O que muda, em muitos casos, é o quanto eles ficam visíveis.

Fontes

Este artigo tem caráter informativo e não substitui a avaliação de um profissional.

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